Colegas do Curso de Pos Graduação
REFLEXÃO SOBRE O TEXTO “INCLUIR PARA EXCLUIR”
de Alfredo Veiga-Neto (2001)
Mario Vargas Vidal
Curso de Pós graduação
Educação Especial com ênfase na Tecnologia Assistiva e Desenho Universal
SEAC - Escola de Educação Profissional & Faculdade Dom Alberto
INCLUIR PARA EXCLUIR
É muito difícil definir um conceito de deficiência e também de normalidade. O que é normal para uns é anormal ou deficiente para outros, da mesma maneira, o que era normal no passado pode não ser normal hoje e vice versa. A diversidade se torna cada vez mais aparente por entre as inúmeras situações e condições vividas pelo cidadão do mundo globalizado.
É, portanto, quase impossível tentar classificar as pessoas conforme seu comportamento, sua morfologia ou suas capacidades como sendo aptas e merecedoras ou não de serem incluídas em uma sociedade igualmente difícil de definir.
Sempre que são feitas classificações envolvendo as diferenças entre as pessoas corre-se o risco de ofender ou melindrar esse ou aquele grupo, até pela dificuldade de utilização da terminologia correta e pela dificuldade de interpretação da população em geral.
E quando essa definição, essa classificação é destinada a aplicação e implantação de leis e políticas públicas que vão atingir diretamente os grupos envolvidos tudo fica ainda mais complicado.
Assim, também a definição de inclusão passa pela interpretação não só popular, mas institucional e governamental. O que é exatamente, como funciona, a quem atinge, tudo deve ser muito bem estabelecido.
Simplesmente misturar as pessoas consideradas normais com as diferentes do padrão estabelecido nas escolas não significa incluir e não é suficiente para proporcionar uma educação de qualidade para todos. Não sem mudar a prática pedagógica e a relação de toda comunidade escolar com a postura filosófica da escola e sua razão de ser, transformando-a no lugar ideal para implantação da inclusão. Modificar, talvez esta seja a parte mais difícil.
A grande dificuldade está no fato de que é preciso repensar toda estrutura dessa escola onde os alunos já são classificados, divididos e selecionados conforme sua progressão em uma escala de valores cognitivos e um currículo formal que, se analisarmos com profundidade, é uma coisa completamente abstrata, dividindo os aptos dos não aptos, os eficientes dos não eficientes. Esta estrutura foi sendo implantada ao longo da história para que se pudesse controlar e dominar o processo de aprendizagem de cada indivíduo. É como tentar engarrafar o crescimento intelectual de cada um e colocar um rótulo que mostre a cor, a marca e a procedência de cada ser humano. Esta estruturação da escola foi petrificando na mente dos educadores ao longo dos anos e hoje muitos não conseguem imaginar uma forma diferente de fazer, o que é uma espécie de “crise de percepção” no que diz respeito à real dimensão do ensino e aprendizagem.
O conceito de normalidade e anormalidade, segundo Veiga – Neto, já vem sendo construído desde Michel Foucault, em 1977, e de Zigmunt Bauman, 1999, para os quais, “a modernidade é o tempo em que a ordem deixou de ser vista como algo natural” e “passou a ser entendida simplesmente enquanto ordem, e como tal, um problema a ser resolvido”. “A existência é moderna na medida que contém a alternativa da ordem e do caos”. Sentem, então, uma necessidade de uma ordenação e dominação da natureza, evitando a indefinição, a imprevisibilidade.
“Prepara a Modernidade como um tempo de intolerância à diferença, mesmo que essa intolerância esteja encoberta e recalcada sob o véu da aceitação e da possível convivência.”
Quando são detectadas as diferenças, estabelecemos uma oposição, e é deflagrada uma relação de poder e não simplesmente uma assimetria cognitiva ou comportamental.
Às vezes o normal depende da existência do anormal para se sentir superior e satisfeito, por sua vez o anormal depende intelectual e fisicamente do normal para sua sobrevivência e segurança.
É preciso rever e analisar como surgiram esses conceitos teoricamente opostos que são a normalidade e a anormalidade também baseados numa percepção errônea do ser humano ou intencionalmente utilizado por grupos detentores do poder para estabelecer formas de controle baseadas na ordem e na normalidade.
A norma pode ser vista como uma “medida que simultaneamente individualiza, permite individualizar incessantemente, e ao mesmo tempo torna comparável” (Ewald, 1993). Ninguém escapa à norma, pois a existência do anormal ajuda a definir o normal. Durante muito tempo a norma justificou o isolamento, a tentativa de normalização, o enquadramento e controle daqueles diferentes e bizarros.
A discussão sobre inclusão começa em torno das vantagens e desvantagens de reunir os normais com os anormais. Os anormais são classificados e diferenciados, e tenta-se adequar a norma na tentativa de equalizar esta situação de diversidade. Não funciona assim, a norma sempre vai excluir, pois é um artifício e não faz parte da natureza.
A inclusão é feita pelos que se consideram normais em prol daqueles que, sendo diferentes e portanto anormais, tem o direito de ser incluídos com os normais. Isto às vezes, parece um tanto contraditório e incoerente, mas é só mais uma coisa para ser pensada.
Cada vez mais, professores e outras pessoas envolvidas no processo de inclusão precisam se aprofundar em seus estudos de Filosofia, Psicologia, Sociologia, política e investigação histórica para poder entender um pouco mais as verdades presentes em toda problematização criada ao redor da inclusão e da sociedade humana dos dias de hoje.
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